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Um dia dos felizes

Sempre que me perguntavam o que gostaria de fazer profissionalmente não sabia que resposta dar. Sabia que só uma actividade relacionada com os livros me deixaria satisfeito, mas jamais consegui nomear essa actividade. Estudei apenas para estar mais perto dos livros, nunca o fiz com a pretensão de colher frutos em termos profissionais e cedo tive a noção - até porque a idade a isso ajudava - que muito pouco poderia esperar de um curso que, supostamente, me ajudaria a interpretar a partir da leitura.

Deu-se a feliz coincidência de ter surgido uma possibilidade de trabalho (ainda que desempregado) em concomitância com os estudos. Trabalhava durante o dia no meio de livros e, à noite, debatia sobre alguns desses mesmos livros, num aconchego inebriante e que só os livros têm a capacidade de assegurar. Esse estado de entropia, se bem que muito me deu, por outro lado sujeitou-me a alguns dos piores períodos pelos quais passei. E se me permitia meditar sobre tudo o que se passava, sobre o empenho que colocava em coisas que se sabiam efémeras - empenho esse que me era reclamado para outros fins - muitas vezes fui tentado a seguir o raciocínio mais óbvio, o mesmo que qualquer um,  numa situação semelhante à minha, teria: isto vale a pena?

Não valeu, para muitas pessoas, e também para mim, em muitos momentos, não valeu, ou pelo menos era isso que a razão me obrigava a pensar. E a razão ganhou durante tanto tempo que naturalmente fui levado a crer que jamais chegaria um dia como o de 28 de Abril de 2014, dia em que recebi um convite para voltar a trabalhar no meio dos livros, novamente complementado com os estudos e por alguém cuja paixão me contagiou de uma forma inolvidável. Lembro-me de estar em casa nesse final de tarde do dia 28 de Abril de 2014, com o Leonardo sentado no tapete e cercado por peças da Lego, a tentar esconder-lhe o choro que me dominava sabe-se lá vindo de onde. Durante muito tempo recordei essa tarde como a última que me lembrava de ter chorado, e recordava-a com um orgulho parvo, como uma criança ao recordar uma birra já com o olhar de adulto. Sei, hoje, que começou nesse dia o princípio daquilo que tenho vivido nos últimos anos e que hoje atinge um ponto muito desejado. Foi o primeiro dia do resto da minha vida.

Já não sou bolseiro de investigação e confesso que essa realidade me deixa nostálgico, na medida em que recordo o processo, uma nova conversa à porta da Biblioteca, num final de tarde em que tive a prova de que a palavra que se dá a alguém numa situação menos boa não tem de ser, necessariamente, palavra de ocasião, apenas porque parece bem dizê-lo em determinadas circunstâncias. E soube, nesse dia, que para além da paixão que me contagiou, havia o reconhecimento do trabalho de escassos sete meses. E continuei a ser feliz.

Troco mensagens com a Sara enquanto escrevo este texto e vem à conversa a expressão "levar o comer", a propósito do que a minha irmã faz regularmente: fazer "o comer" a este e àquele. Uma expressão tão bonita quanto síntese daquilo que é tipicamente alentejano. Fazer "o comer" é não apenas cozinhar a comida mas também integrar nessa tarefa o acto de comer. É como se "fazer o comer" fosse um pouco o gesto de comer pelo outro, assim como o gerúndio tem a capacidade de falar de uma acção como se a mesma se desenrolasse naquele exacto momento. A vida da minha irmã tem sido um pouco essa tarefa de levar a comida à boca de todos, e é uma tarefa que tem tanto de bonita como de nobre. Ainda que neste caso por uma questão de sobrevivência, apresentar "o comer" sempre foi gesto da nobreza, para bem receber, entenda-se, mas a essência é a mesma. A minha irmã tem desempenhado essa função de forma nobre.

Sou muito fraco com emoções. Não fraco no sentido de escassearem em mim mas sim por inaptidão em conhecer-lhes as manhas e em lhes dar o rumo certo. Sou um tronco muito mais vezes do que aquelas que seriam desejáveis, e que eu desejaria. Um tronco oco, é certo, mas um tronco. Isso faz com que seja difícil para os outros perceberem se essa postura se deve, numa situação específica, ao facto atrás assinalado ou se é devida à minha necessidade de não ser "peso morto", de não ser aquele do qual se espera pouco mais do que silêncio, mesmo sabendo o quão confortável é o silêncio. Não consigo atribuir grande crédito ao encolher de ombros, ao lugar no canto que passa despercebido, à opinião que se funda na expressão "não sei...", sobretudo quando, a juntar a isto, há o factor "sonso". Consigo ser um real estúpido algumas vezes e aprendi que depois de o ser, um pedido de desculpas raramente é emenda, mas o ser-se "sonso" é uma outra arte para a qual, felizmente, não estou habilitado.

Também sou injusto bastantes vezes, sobretudo devido à teimosia de esperar dos outros nunca menos do que espero de mim. Já tentaram ensinar-me a ser sensível às diferenças, percebendo, dessa forma, que não podemos esperar o mesmo de toda a gente, mas nem sempre é fácil não me indignar. Muitas vezes me indigno porque os outros não se indignam quando me parece que não é possível menos do que a indignação. Contudo, sou um afortunado. E talvez por isso me indigne, por estar no sítio que sempre quis, a fazer o que também a mim me apaixona, ainda que tivesse de aprender com outra pessoa a quem reconheci a paixão. Fazer o que faço é o meu "comer". É nele que busco o consolo dos dias tristes e é por ele que muitas vezes me indigno: porque só nos indignamos com o que realmente nos importa. É por isso que hoje é um dos raros dias felizes! Conforta-me a ideia de que haverá, pelo menos, uma pessoa que saberá o que isso significa.

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