Pouca vida paga o sossego das tuas mãos, os altos e baixos que o roçagar dos teus dedos desenha no meu consolo ou a frágil preocupação das vezes em que não há par, em que eu sou apenas eu e tu és muito mais do que nós. Há um tempo para te ter em abstracto e onde te anuncias numa imagem que imita uma valsa em movimento perpétuo, em passos articulados e breves como breve é o consolo do teu corpo. E tu tentas os movimentos da dança, em meneios distraídos que te escapam aos sentidos mas que persigo com o mesmo olhar que atribuis à descrença em ti. Tens-te em contas de subtrair na medida certa das minhas contas que te somam, mas nada me subtrai de ti, agora que o adiamento é já um passado adiado, consolo apenas das tuas objecções ao que digo e tenho de ti. Tantas vezes, minha querida!
Quase sempre sou de um tempo em que já não se vive, um tempo que traça em linhas firmes a cópia da tua valsa, ensaiada no sono em que te ocultas e onde tentas a imagem clara do nosso viver, nem sempre com o sucesso que nos possibilita. Quase sempre tenho certo que sou de um tempo que já não vive mas vivo em ti, porque tens o tempo certo para nos viver, mesmo nos dias em que viver parece um esforço que não vale a pena ser vivido. Pouca vida paga o sossego das tuas mãos, a bonita e a diferente, e nos dias tristes talvez valha a pena viver só por isso, pelo consolo que te sai das mãos e pela valsa que ensaias no teu corpo grande no meu corpo grande.
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