Há dias sonhei que tinha cabelo. Melhor, sonhei que tinha um cabelo como o do George Clooney, assim cheio de "canas", como dizem os espanhóis e nós também devíamos dizer. Ter um cabelo viçoso, a gritar saúde e pejado de canas é o último estágio da sensualidade capilar, e eu sonhei que estava assim, embora o resto se mantivesse no mesmo estado em que está. O deus dos sonhos só permitiu que a minha felicidade temporária se confortasse com o cabelo, ainda que o tenha permitido por largos minutos. Nem sempre me é permitido sonhar adequadamente com coisas boas, coisas que nos aproximam de um estado de felicidade que não é fácil ter na vida fora dos sonhos.
Os melhores sonhos que tenho costumam envolver motas ou bolos, e quando sonho com motas é sempre uma frustração ao perceber que era só em sonhos que tinha à minha disposição vários veículos de duas rodas para escolher consoante o tempo e o percurso. Geralmente, os sonhos que envolvem motas são longos sonhos, como longa foi a minha vida no tempo em que andava de mota. Acho que é uma gentileza do deus dos sonhos, ao oferecer-me, ainda que de uma forma abstracta, a experiência que tive durante cerca de seis anos, e acredito que também ele se entristece quando o sonho se dissipa na realidade.
Também sonho com bolos. Nesses sonhos, os bolos são enjoativos e raramente me dão prazer. São tantos bolos e com tantos cremes de várias cores e tamanhos que é normal despertar com náuseas que se repetem sempre que, nos dias que se seguem, passo por qualquer pastelaria que tenha expostos bolos como os do meu sonho. Acho que o facto de sonhar com bolos tantas vezes está relacionado com a minha infância porque havia um dia estipulado para comer bolos que a minha irmã me comprava. Um dia, porque o dinheiro não abundava e os bolos eram um luxo a que não nos podíamos dar. Ansiava por esses dias como quem espera o amor, é assim que os vejo hoje. Sabia que nos dias de bolo havia uma felicidade rara, momentânea e rara, por isso deitava-me nos outros dias a pensar no bolo que comeria, com uma ternura que raramente sinto hoje. Só que, nestes sonhos com bolos, o deus dos sonhos já não se mostra tão simpático como nos sonhos com motas e enche-me de bolos que só de olhar causam repulsa, asco, como se dissesse, "querias bolos, então toma lá bolos!" e eu me sentisse na obrigação de me mostrar agradecido para com a sua gentileza, empanturrando-me de massa e cremes e açúcar como pena pelos dias em que adormeci na ânsia do dia de bolo.
Penso agora no significado do último sonho, o do cabelo luminoso e cheio de "canas", mas não vou procurar o seu significado na internet. Talvez o faça quando terminar de escrever este texto e quem sabe não terei uma revelação. Por agora limito-me a analisar o sonho à luz da minha memória, que neste caso se mostra bastante limitada. Eu tinha cabelo e era só isso. Não há mais nada para além de ter cabelo; nenhuma festa ou ocasião especial para a qual o deus do sonho me emprestara uma cabeleira em condições; nenhum período específico da minha vida passada ou futura; nenhum motivo aparente para, de repente, ser eu mesmo um deus da ciência capilar. No entanto, recordo que a relação que mantive com o meu cabelo sempre esteve refém da utilização do capacete, no tal período de cerca de seis anos em que andava diariamente de mota, e como essa relação me sujeitava a mantê-lo aparado com uma regularidade religiosa. O tamanho do cabelo influenciava, de uma forma crítica, o conforto que sentiria com o capacete, já de si justo o suficiente para que, em velocidades mais altas, não me subisse pelo rosto acima exercendo uma pressão no pescoço humanamente impossível de suportar. Portanto, o capacete comprava-se com o cabelo de um tamanho que seria suposto manter, e o meu seria suposto manter bem curto, pente três, como pedia ao barbeiro que agitava freneticamente a tesoura a escassos milímetros das minhas orelhas, como que num ensaio para o que me esperava. Neste caso, imagino que a estratégia do deus dos sonhos tenha sido a contrária à utilizada nos sonhos dos bolos, e diria qualquer coisa como "menosprezaste a saúde do teu cabelo, sujeitando-o ao rigor de um singelo capacete, e agora que nada podes fazer contra a insidiosa calvície, ora toma lá uma cabeleira que, na tua idade, é o mais sensual que consegues arranjar..."
Agora estou sujeito à necessidade de olhar e invejar as "canas" que por aí andam, passeando-se em homens da minha idade mas com um vigor que só as "canas" conseguem, sobretudo quando essa realidade se transfere também para a barba, como um prolongamento da sensualidade, como se gritassem "repara como não só consigo manter "canas" no cabelo como também as prolongo na barba!" E trago este sonho entalado no meu orgulho, que nunca antes se deixara afectar pela minha calvície mas que agora parece ter sido despertado pelos penteados a que só um descareca pode almejar. Não há sequer um nome para quem não é careca, ou melhor, houve necessidade de se criar um nome para essa gente que não se pode dar ao luxo de descurar o gorro em dias de invernia! Quem não tem cabelo é careca e quem tem cabelo não é careca. Portanto, o careca é omninominável, uma palavra que dificilmente existirá mas que acho adequada e justa para com um sujeito que suporta até quem não o merece, como todos aqueles que têm cabelo.
Terminei há poucos dias o livro de Manuel Vilas, "Ordesa", em português com o título acrescentado "Em tudo havia beleza", com o qual eu não concordo. Não que seja um mau título, mas porque manter apenas "Ordesa" seria mais adequado ao significado que o autor lhe dá. Quando leio um livro tão bom como este recupero a esperança nas coisas simples, como essa "piroseira" que é o amor, de que o livro fala, nas mais variadas formas em que é possível encontrá-lo. O livro de Manuel Vilas é piroso a olho e eu adoro que o livro de Manuel Vilas seja orgulhosamente piroso. Ser piroso, em literatura, é reiterar no sentimento, exercício cada vez mais raro de encontrar, sem descurar a escrita, e é aí que está o segredo. Manuel Vilas é poeta, ou pelo menos era até escrever este livro sem género, como serão todos os livros quando a literatura vencer a academia, mas a poesia de Manuel Vilas não é nada de extraordinária, creio. Não obstante, nota-se perfeitamente que foi um poeta quem escreveu "Ordesa", precisamente porque "Ordesa" é piroso mas tem cuidado com a forma como a narrativa é apresentada, como aquilo que se diz sugere mais do que relata, que é o segredo de toda a boa literatura. Para ajudar à "piroseira", toda a gente fala de como "Ordesa" tem feito chorar os espanhóis. Chorar, vejam bem, essa coisa datada e pirosa que só um livro piroso como o de Vilas pode conseguir. Porque fala do amor de um filho pelos pais, que é também o amor desse pai pelos filhos, e porque nos recorda aqueles episódios que são comuns à maioria dos comuns dos mortais mas que tendemos a esquecer da mesma forma que esquecemos de esperar o amor.
Da quantidade de entrevistas que têm sido feitas a Manuel Vilas, destaco esta, porque é simples à medida de "Ordesa", despretensiosa e porque o brilho no olhar de Vilas (ah! um lugar comum!) está ao nível do brilho do seu livro e o seu sorriso é do mais empático que já vi.
Penso agora no significado do último sonho, o do cabelo luminoso e cheio de "canas", mas não vou procurar o seu significado na internet. Talvez o faça quando terminar de escrever este texto e quem sabe não terei uma revelação. Por agora limito-me a analisar o sonho à luz da minha memória, que neste caso se mostra bastante limitada. Eu tinha cabelo e era só isso. Não há mais nada para além de ter cabelo; nenhuma festa ou ocasião especial para a qual o deus do sonho me emprestara uma cabeleira em condições; nenhum período específico da minha vida passada ou futura; nenhum motivo aparente para, de repente, ser eu mesmo um deus da ciência capilar. No entanto, recordo que a relação que mantive com o meu cabelo sempre esteve refém da utilização do capacete, no tal período de cerca de seis anos em que andava diariamente de mota, e como essa relação me sujeitava a mantê-lo aparado com uma regularidade religiosa. O tamanho do cabelo influenciava, de uma forma crítica, o conforto que sentiria com o capacete, já de si justo o suficiente para que, em velocidades mais altas, não me subisse pelo rosto acima exercendo uma pressão no pescoço humanamente impossível de suportar. Portanto, o capacete comprava-se com o cabelo de um tamanho que seria suposto manter, e o meu seria suposto manter bem curto, pente três, como pedia ao barbeiro que agitava freneticamente a tesoura a escassos milímetros das minhas orelhas, como que num ensaio para o que me esperava. Neste caso, imagino que a estratégia do deus dos sonhos tenha sido a contrária à utilizada nos sonhos dos bolos, e diria qualquer coisa como "menosprezaste a saúde do teu cabelo, sujeitando-o ao rigor de um singelo capacete, e agora que nada podes fazer contra a insidiosa calvície, ora toma lá uma cabeleira que, na tua idade, é o mais sensual que consegues arranjar..."
Agora estou sujeito à necessidade de olhar e invejar as "canas" que por aí andam, passeando-se em homens da minha idade mas com um vigor que só as "canas" conseguem, sobretudo quando essa realidade se transfere também para a barba, como um prolongamento da sensualidade, como se gritassem "repara como não só consigo manter "canas" no cabelo como também as prolongo na barba!" E trago este sonho entalado no meu orgulho, que nunca antes se deixara afectar pela minha calvície mas que agora parece ter sido despertado pelos penteados a que só um descareca pode almejar. Não há sequer um nome para quem não é careca, ou melhor, houve necessidade de se criar um nome para essa gente que não se pode dar ao luxo de descurar o gorro em dias de invernia! Quem não tem cabelo é careca e quem tem cabelo não é careca. Portanto, o careca é omninominável, uma palavra que dificilmente existirá mas que acho adequada e justa para com um sujeito que suporta até quem não o merece, como todos aqueles que têm cabelo.
Terminei há poucos dias o livro de Manuel Vilas, "Ordesa", em português com o título acrescentado "Em tudo havia beleza", com o qual eu não concordo. Não que seja um mau título, mas porque manter apenas "Ordesa" seria mais adequado ao significado que o autor lhe dá. Quando leio um livro tão bom como este recupero a esperança nas coisas simples, como essa "piroseira" que é o amor, de que o livro fala, nas mais variadas formas em que é possível encontrá-lo. O livro de Manuel Vilas é piroso a olho e eu adoro que o livro de Manuel Vilas seja orgulhosamente piroso. Ser piroso, em literatura, é reiterar no sentimento, exercício cada vez mais raro de encontrar, sem descurar a escrita, e é aí que está o segredo. Manuel Vilas é poeta, ou pelo menos era até escrever este livro sem género, como serão todos os livros quando a literatura vencer a academia, mas a poesia de Manuel Vilas não é nada de extraordinária, creio. Não obstante, nota-se perfeitamente que foi um poeta quem escreveu "Ordesa", precisamente porque "Ordesa" é piroso mas tem cuidado com a forma como a narrativa é apresentada, como aquilo que se diz sugere mais do que relata, que é o segredo de toda a boa literatura. Para ajudar à "piroseira", toda a gente fala de como "Ordesa" tem feito chorar os espanhóis. Chorar, vejam bem, essa coisa datada e pirosa que só um livro piroso como o de Vilas pode conseguir. Porque fala do amor de um filho pelos pais, que é também o amor desse pai pelos filhos, e porque nos recorda aqueles episódios que são comuns à maioria dos comuns dos mortais mas que tendemos a esquecer da mesma forma que esquecemos de esperar o amor.
Da quantidade de entrevistas que têm sido feitas a Manuel Vilas, destaco esta, porque é simples à medida de "Ordesa", despretensiosa e porque o brilho no olhar de Vilas (ah! um lugar comum!) está ao nível do brilho do seu livro e o seu sorriso é do mais empático que já vi.

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