Gentilmente cedido o teu sossego reages brusca à subtileza de te ter em afagos. Sabes tão bem que o conhecimento desse facto me obrigaria ao degelo, em modos breves, raiando a inércia, não te ocupando o sossego ainda agora cedido, entregue à sorte de uma navegação à vela, sem ilha que me salve do teu naufrágio. Sou gentil quando sei que gentilmente cedeste o teu sossego; é a minha tentativa de te chegar quando em ti ainda resquícios de um estado já antigo. O teu sossego. Há coisas que prezas como os seres da antiguidade, com tratos caídos em desuso, perdidos no esquecimento, mas que ressuscitas com a naturalidade de uma acção vaga. E sossegas em tal estado que no imediato somos já os seres que ninguém conhece, ou recorda, mas que nós inventamos na inércia de nos termos em imobilidade. Criamos a antiguidade a partir da estagnação porque só nela reconhecemos o milagre de uma arte imóvel, uma arte que surge da paralisação. Quando estás em sossego sinto um coro de ós e ás que te rodeiam, intangíveis, ensurdecedores, e quedo-me impassível na observação dos teus traços, adivinhando os recônditos abrigos que encerras na tua condição. E se gentilmente cedes o teu sossego eu despavoreço com a quietude que a tua cedência pediria e desencontro-me, não fosse eu um caso assumido de gentileza esquecida. E desencontradamente me fico em comedimentos nos modos breves com que assinalo a tua brusca reacção, minha querida, só porque sei, agora, que recriamos coisas que a antiguidade votou ao esquecimento.
Como é que temos noção do fim? De que forma nos é dado a conhecer o final de algo que entendemos ter terminado? Isto é, o final existe ou é apenas uma defesa que aplicamos a variadíssimas situações na nossa vida?
Este foi um ano com demasiados finais, um ano em que quase tudo aquilo com que contactava anunciava já a vertigem da resolução, provido que vinha de uma certa abstracção. E essa realidade, por si só, levou-me, em todas essas situações, a questionar-me sobre a alegação do fim, o momento exacto em que determinada experiência revela o seu ponto culminante.
Recordo "Ordesa", de Manuel Vilas, porque foi o livro que, tal como tem vindo a suceder todos os anos, melhor ilustra a minha vivência no decorrer do ano que agora chega ao fim (ou não fosse este um texto sobre "fins"). Nele, Vilas almejou uma espécie de prorrogação do tempo de vida dos seus pais, como se os chamasse de volta à vida, contrariando qualquer ideia de final. Segundo o autor, o objectivo de &q…
Este foi um ano com demasiados finais, um ano em que quase tudo aquilo com que contactava anunciava já a vertigem da resolução, provido que vinha de uma certa abstracção. E essa realidade, por si só, levou-me, em todas essas situações, a questionar-me sobre a alegação do fim, o momento exacto em que determinada experiência revela o seu ponto culminante.
Recordo "Ordesa", de Manuel Vilas, porque foi o livro que, tal como tem vindo a suceder todos os anos, melhor ilustra a minha vivência no decorrer do ano que agora chega ao fim (ou não fosse este um texto sobre "fins"). Nele, Vilas almejou uma espécie de prorrogação do tempo de vida dos seus pais, como se os chamasse de volta à vida, contrariando qualquer ideia de final. Segundo o autor, o objectivo de &q…
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