A edição em Portugal passa por uma fase profícua no que diz respeito à publicação de biografias de personagens da história literária portuguesa, facto louvável por si só mas que acresce a curiosa particularidade de, em grande parte dos casos, tais textos saírem da lavra de escritores também eles com obra de ficcção publicada. É o caso da mais recente (e única?) biografia de Mário Cesariny de Vasconcelos, da autoria de António Cândido Franco, ainda agora saída do prelo, a fumegar, portanto, com o impressivo título "O Triângulo Mágico".
Do que se pode esperar de uma biografia colho, em grande parte, o que nela possa haver de isenção mas igualmente de paixão. Não concebo tamanha empreitada sem o respectivo quinhão de paixão pelo biografado; difícil é sê-lo sem o parecer, isto é, a pesquisa e a escrita apaixonada com a obrigatória isenção. A espaços - que amiúde se prolongam por largos capítulos - Cândido Franco consegue-o: afirmo-o, reforçando o elogio, que o é, na medida em que, se havia tarefa complicada no trabalho do autor, era precisamente a fidelidade à isenção. E se tal tarefa não almeja realizar-se na totalidade, tal só pode - e deve - desculpar-se à luz da paixão que António Cândido Franco aparenta ter para com o seu biografado. Aliás, o autor travou ainda conhecimento com Cesariny, circunstância que merece o devido relato na obra e que surgiu a propósito do trabalho de investigação que Cândido Franco desenvolveu em relação à obra de Teixeira de Pascoaes, poeta por quem Cesariny nutria grande admiração, colocando-o no lugar que Fernando Pessoa ocupa no cânone da literatura portuguesa.
A prosa de Cândido Franco é de uma qualidade à prova de qualquer suspeita, como se semeada e colhida da terra, num processo a que o leitor assiste e que se desenvolve ao longo da obra, de uma riqueza lexical que acaba por ter uma relação directa com a fluidez da leitura. Ajuda, claro está, o facto de estarmos perante um autor com obra editada na área da ficção literária e que, como tal, revela o manejo próprio de quem domina a estrutura de um texto em prosa. Estamos perante uma biografia que não atende "apenas" às questões puramente biográficas de Mário Cesariny mas que adentra na problemática do movimento artístico ao qual o poeta esteve intimamente ligado, o Surrealismo, bem como explana com notável naturalidade os episódios relacionados com Cesariny e que tiveram como protagonistas outros nomes cimeiros da cultura portuguesa.
Cândido defende Cesariny na esmagadora maioria das situações (e foram tantas!) em que o biografado se viu envolvido em polémicas, com excepção do episódio que levaria à ruptura na relação com Luiz Pacheco - um dos primeiros editores de Mário Cesariny - a propósito de um texto escrito por aquele e cujo entendimento escapou ao poeta e pintor. Temos, portanto, um biógrafo comprometido com a causa do biografado, sem que, não obstante, esse comprometimento se aperceba de forma exasperada. No mais, temos uma narrativa que se desenvolve obedecendo aos dados cronológicos do poeta, cabendo, sempre que se revela pertinente, pequenos "à parte" que ajudam a manter o fôlego do leitor, sustentando, dessa forma, uma leitura que se faz com a naturalidade de um relato ficcional. Apoiados na extravagância de alguém que viveu de acordo com a liberdade que lhe era possível - numa época em que a tarefa não se adivinhava fácil -, o leitor entra com bastante facilidade na teia de relacionamentos de Cesariny, assistindo aos episódios que levaram à criação dos diferente grupos ligados ao Surrealismo e apercebendo-se do comprometimento do poeta para com um movimento artístico que, segundo Cândido Franco, já nele se apercebia ainda na fase inicial em que estava ligado ao neo-realismo.
De todos os elogios que possam ser feitos a "O Triângulo Mágico", talvez o mais importante esteja relacionado com a importância que esta biografia passa a ter, não só no conhecimento de Mário Cesariny mas, sobretudo, no plano dos estudos sobre o Surrealismo: doravante, este será um livro obrigatório para todos os que pretendam adentrar na investigação de um movimento artístico que permanece deficitário no que ao seu estudo diz respeito, e que vem trazer à discussão novos dados, apoiados num trabalho de investigação notável por parte de António Cândido Franco. Uma obra muito boa, na sua concepção e no resultado que apresenta.

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