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O Benedetti das coisas eternas

Faz tempo que não me seduzia uma mesa com cadeiras ao ar livre, rodeado de pessoas, sobretudo se nessa mesa com cadeiras me perca sozinho, hoje que a minha bolinha se acerca de coisas que nos fazem mais felizes na infelicidade de nos termos sós.

Há poucas pessoas no largo, meia-dúzia captando o templo dos mais variados ângulos, tentando registar um ponto novo nas pedras seculares. Não haverá nada de novo para ver, penso, na medida em que não há, igualmente, monumento mais fotografado do que este em toda a cidade de Évora, tornando-o, também, responsável por tudo o que de marcante por aqui existe e que escapa, irremediavelmente, às lentes dos foragidos que aqui chegam na ânsia de coleccionar "chapas".

Detenho-me num casal com três filhos e analiso a ginástica acrobática que a mais velha, talvez adolescente - ainda que as moças cresçam fortes e enganem o mais atento dos homens -, faz para ficar bem na foto. E vai dizendo "one more, one more..." enquanto o pai, de olhar embevecido mas a pender para o constrangimento, lá lhe vai fazendo o jeito, movendo a máquina fotográfica ao sabor da elasticidade da rapariga e nova identificação do monumento num qualquer instagram pessoal. Seria possível fazer uma estatística a partir das identificações nas redes sociais, ainda que o registo apenas contemplasse as capturas rápidas de placas sinalizadoras, sem a devida (e aconselhável) visita. O Templo é fácil, que não obriga a entradas, bilhetes, corredores de coisas chatas e que não se coadunam com a ginástica do instagram, que valoriza a fantasia, no sentido de "ficção" ou "idealização". Idealmente, para o comum dos turistas, todos os lugares fotografáveis deveriam ter a natureza do Templo, que fica visto em 2 minutos e de longe, não obstante a maçada de ficar no alto.

Trago o Benedetti comigo porque a hora diurna e a solidão (minha bolinha, tanto, tanto...) da companhia convidam à leitura, e ensaio um movimento que, em mim, é também - tristemente - cada vez mais raro. Deixei o Li cedo no atl e senti a nostalgia dos tempos de colégio em que havia uma espécie de fuga às escondidas sob pena de dar com ele filado às minhas canelas indagando-me sobre um pretenso e precoce abandono. Hoje, que o deixo só enquanto o observo estendendo meticulosamente uma toalha na relva artificial que imita na perfeição as tonalidades de um relvado são e perfeito, sentando-se enquanto vai brincando com os dedos, vem-me à memória (não há outro verbo tão adequado para utilizar com "memória" como o verbo "vir") o Li dos anos pequenos, o Li pré-papagaio que observava muito mais do que falava e retinha informação que soltava, largos dias após, e me deixava intrigado com tamanha selectividade memoralística.

Entro no carro e parece que oiço o seu grito, aludindo-me em desespero, e imagino-o com as aflições da meninice enquanto desligo o som do rádio e assim vou, de ouvido fito, durante mais do que o grito do meu menino conseguiria percorrer. E não fico descansado até ao final da tarde, quando lhe irei perguntar se nada de extraordinário, se nenhuma necessidade de chamar por mim, ele que revelou uma noite mal passada devido às insistências do Duca em dormir ocupando mais cama do que o seu  profícuo corpo deixaria entender.

Movimentos raros em mim, dizia eu, como abrir o Benedetti, ou outro qualquer - mas Benedetti é Benedetti -, numa esplanada, porque me sobra tempo ao que me faltou na véspera, quando o sono me venceu o prazer de terminar o último Benedetti que me caiu nas mãos, a meras dez páginas do fim. Mas é obra que não merece luta contra o sono, sob pena de se afogar em sonhos e desmemórias. E a luz da rua que parece transfigurar a tinta que imprimiu o texto, ou talvez o grito que o meu menino de onze anos roubou ao meu menino de dois anos me distraia da obra. A rapariga acrobata movimenta repetidamente o dedo, em gestos ascendentes, aferindo da qualidade do fotógrafo pai, talvez seleccionando a melhor "chapa" ilustrativa daquele pedaço de pedra que insiste em fazer-se senhor da cidade.

A leitura, em mim, tem tudo a ver com estes estados raros de precipitação das coisas, que não são mais do que as nuvens anunciadoras na nossa vida, e não raro, em ocasiões destas, surgem autores como o Benedetti que me faz lembrar, com a sua prosa aparentemente embrulhada, a rapariga acrobata que é já passado na história do Templo e na história da minha leitura, penso, orgulhoso. Termino o "Obrigada pelo lume", embevecido como se um livro de um filho meu se tratasse. Sinto esse carinho pelo Benedetti que apenas se sente por quem se ama com muita força, e às vezes muita dor. Tenho o meu menino cujo grito ecoa na minha cabeça e lá ficou, perdido no verde artificial, olhando os dedos que imitam na perfeição os do pai. Benedetti é também, e por enquanto, o meu menino, só não sei sobre a forma dos seus dedos, se são os do pai ou se puxam à mãe, ou, quem sabe, seriam capazes das mesmas acrobacias que ainda agora vi na rapariga acrobata que pedia mais uma, mais uma. Termino livros como quem se despede de coisas eternas, sabendo que, ainda assim, não as voltará a encontrar. Há coisas que, tal como os livros que termino, são eternas e jamais verão a sua eternidade vendida, mesmo que alguém lhes reclame a posse. Nestes casos, há que esperar a sua passagem e desejar que a sua acção seja em tudo parecida com a da rapariga acrobata: ficar bem na foto e desaparecer.


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