Como é que temos noção do fim? De que forma nos é dado a conhecer o final de algo que entendemos ter terminado? Isto é, o final existe ou é apenas uma defesa que aplicamos a variadíssimas situações na nossa vida?
Este foi um ano com demasiados finais, um ano em que quase tudo aquilo com que contactava anunciava já a vertigem da resolução, provido que vinha de uma certa abstracção. E essa realidade, por si só, levou-me, em todas essas situações, a questionar-me sobre a alegação do fim, o momento exacto em que determinada experiência revela o seu ponto culminante.
Recordo "Ordesa", de Manuel Vilas, porque foi o livro que, tal como tem vindo a suceder todos os anos, melhor ilustra a minha vivência no decorrer do ano que agora chega ao fim (ou não fosse este um texto sobre "fins"). Nele, Vilas almejou uma espécie de prorrogação do tempo de vida dos seus pais, como se os chamasse de volta à vida, contrariando qualquer ideia de final. Segundo o autor, o objectivo de "Ordesa" foi, em grande parte, esse mesmo: recordar os pais, chamando-os à vida através dos pequenos apontamentos que a memória lhe permitiu tocar.
A memória é o grande privilégio da humanidade, para o bem e para o mal. Mas é-o na exacta medida da utilização que lhe damos, do que entendemos - porque muito do que se recorda, ou não, através da memória é uma escolha nossa - relevar ou, pelo contrário, omitir. E se omitimos, fazêmo-lo conscientemente, muitas vezes (sempre?) utilizando a memória como ferramenta das nossas pretensões e vontades: a memória como ferramenta do mal. Contudo, outros casos há em que, por motivos que o meu conhecimento da matéria desconhece, a memória nos vai atraiçoando, escondendo-nos o que gostaríamos de ter a descoberto ou mostrando-nos o que desejaríamos ver enterrado e eternamente esquecido. É em situações como as que descrevo no primeiro exemplo que a memória tem um papel fulcral no que determinamos como o fim de alguma coisa: o fim, em si mesmo, só existe a partir do momento em que é eliminado, inconscientemente, da nossa memória. Porque o que pretende ser eliminado conscientemente não ambiciona o fim, logo, mantém essa qualidade, ainda que subjectiva, de realidade "palpável".
Acontece que, para bem da nossa saúde mental, o que determinada pessoa decide eliminar da sua memória não tem, necessariamente, repercussões na memória da(s) outra(s) pessoa(s) com quem partilhou essas vivências, ou seja, é mero senso comum: ao contrário de um computador que é utilizado por várias pessoas, e cujo conteúdo podemos eliminar sem que as outras pessoas possam voltar a aceder a esse conteúdo, a memória é, felizmente, indissociável de cada um de nós. Eu tenho a minha memória, e nela preservo os resultados do contacto com as pessoas - que são personalizados, porque é a minha memória. Contudo, será difícil resultar, de uma experiência a dois, memórias absolutamente antagónicas. Ou melhor, possível, é, mas tem um nome: mentira. Portanto, uma memória falseada - o tal uso da memória de acordo com as conveniências de que falei - é, na verdade, um rol de mentiras, fruto da omissão dos resultados do contacto com determinada pessoa.
Costuma chamar-se a isso "ter memória curta". Eu tenho "memória curta", não porque viva no constante e consciente apagamento da mesma - embora de vez em quando também o faça, como todos fazemos - mas porque tenho mesmo, no sentido em que a minha memória apaga episódios ou experiências que gostaria de recordar eternamente. E se me dou conta disso é só porque, em conversa com alguém, me são dados a (re)conhecer esses episódios que a minha memória esquecera e que, afinal, nem estão assim tão distantes no tempo - e só dessa forma nos poderemos dar conta de realidades entretanto votadas ao olvido.
Este foi também um ano de recorrências imperativas à memória, numa necessidade de recordar episódios a que gostaria de ditar um fim mas que, não obstante terem, ou não, terminado, a memória continua a preservá-los na substância da realidade. É também por esse motivo que se escreve, como exercício de preservação da memória esquecida, daí a constante - e recorrente - caça aos livros, tornando-os obra do "demo" e alvos a abater. Dom Quixote - sempre o meu querido Dom Quixote -, deixa-se alienar pelas histórias de cavalaria, e ainda que, a dada altura, decidam queimar quase todos os livros da sua biblioteca, o cavaleiro andante prossegue os seus feitos recorrendo à memória que guarda das histórias que povoavam os livros agora destruídos para todo o sempre. Para bem de Alonso Quijano - o Quixote antes de o ser - nenhum dos seus livros teve um fim, ainda que o saibamos morto (a Alonso Quijano), uma vez que na memória de todos os amantes da obra prima de Cervantes ele continua bem vivo.
É aí que descobrimos a importância de escrever alguma coisa sobre alguém, por mais ténue que seja esse escrito, ou a relação com esse alguém: porque só dessa forma seremos nós os enganadores da memória. Manuel Vilas, assim como tantos outros (Benedetti, meu querido Benedetti) que misturam a realidade na sua ficção - e que tanto molestam a Javier Marías, que não atenta na indissociabilidade das duas matérias -, conhecedor das patranhas a que a memória nos sujeita, escreveu um livro enormíssimo. "Ordesa" é um livro da ordem do indizível, um objecto raro como tão raramente a literatura consegue, e se o é, deve-o à capacidade de Vilas em tornar nosso tudo aquilo que, aparentemente, era apenas seu. Este é, creio, um dos pontos chave da grande literatura: tornar universal o pessoal.
Para todos os que vivem na ficção, sobretudo das redes sociais, e que perpetuam a mentira nas suas vidas, o meu desejo é que vivam mais a vida real - se a tiverem - e que percebam (como se necessário fosse...) que os "recados" dizem mais de quem os envia do que dos supostos visados: leiam "Ordesa", que ajuda a passar.

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