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Mensagens

Um "recado" do ano que passa

Como é que temos noção do fim? De que forma nos é dado a conhecer o final de algo que entendemos ter terminado? Isto é, o final existe ou é apenas uma defesa que aplicamos a variadíssimas situações na nossa vida?
Este foi um ano com demasiados finais, um ano em que quase tudo aquilo com que contactava anunciava já a vertigem da resolução, provido que vinha de uma certa abstracção. E essa realidade, por si só, levou-me, em todas essas situações, a questionar-me sobre a alegação do fim, o momento exacto em que determinada experiência revela o seu ponto culminante. 
Recordo "Ordesa", de Manuel Vilas, porque foi o livro que, tal como tem vindo a suceder todos os anos, melhor ilustra a minha vivência no decorrer do ano que agora chega ao fim (ou não fosse este um texto sobre "fins"). Nele, Vilas almejou uma espécie de prorrogação do tempo de vida dos seus pais, como se os chamasse de volta à vida, contrariando qualquer ideia de final. Segundo o autor, o objectivo de &q…

O Benedetti das coisas eternas

Faz tempo que não me seduzia uma mesa com cadeiras ao ar livre, rodeado de pessoas, sobretudo se nessa mesa com cadeiras me perca sozinho, hoje que a minha bolinha se acerca de coisas que nos fazem mais felizes na infelicidade de nos termos sós.

Há poucas pessoas no largo, meia-dúzia captando o templo dos mais variados ângulos, tentando registar um ponto novo nas pedras seculares. Não haverá nada de novo para ver, penso, na medida em que não há, igualmente, monumento mais fotografado do que este em toda a cidade de Évora, tornando-o, também, responsável por tudo o que de marcante por aqui existe e que escapa, irremediavelmente, às lentes dos foragidos que aqui chegam na ânsia de coleccionar "chapas".

Detenho-me num casal com três filhos e analiso a ginástica acrobática que a mais velha, talvez adolescente - ainda que as moças cresçam fortes e enganem o mais atento dos homens -, faz para ficar bem na foto. E vai dizendo "one more, one more..." enquanto o pai, de ol…

Para o Surrealismo, doravante.

A edição em Portugal passa por uma fase profícua no que diz respeito à publicação de biografias de personagens da história literária portuguesa, facto louvável por si só mas que acresce a  curiosa particularidade de, em grande parte dos casos, tais textos saírem da lavra de escritores também eles com obra de ficcção publicada. É o caso da mais recente (e única?) biografia de Mário Cesariny de Vasconcelos, da autoria de António Cândido Franco, ainda agora saída do prelo, a fumegar, portanto, com o impressivo título "O Triângulo Mágico".
Do que se pode esperar de uma biografia colho, em grande parte, o que nela possa haver de isenção mas igualmente de paixão. Não concebo tamanha empreitada sem o respectivo quinhão de paixão pelo biografado; difícil é sê-lo sem o parecer, isto é, a pesquisa e a escrita apaixonada com a obrigatória isenção. A espaços - que amiúde se prolongam por largos capítulos - Cândido Franco consegue-o: afirmo-o, reforçando o elogio, que o é, na medida em …

Da gentileza e outros advérbios de modo

Gentilmente cedido o teu sossego reages brusca à subtileza de te ter em afagos. Sabes tão bem que o conhecimento desse facto me obrigaria ao degelo, em modos breves, raiando a inércia, não te ocupando o sossego ainda agora cedido, entregue à sorte de uma navegação à vela, sem ilha que me salve do teu naufrágio. Sou gentil quando sei que gentilmente cedeste o teu sossego; é a minha tentativa de te chegar quando em ti ainda resquícios de um estado já antigo. O teu sossego. Há coisas que prezas como os seres da antiguidade, com tratos caídos em desuso, perdidos no esquecimento, mas que ressuscitas com a naturalidade de uma acção vaga. E sossegas em tal estado que no imediato somos já os seres que ninguém conhece, ou recorda, mas que nós inventamos na inércia de nos termos em imobilidade. Criamos a antiguidade a partir da estagnação porque só nela reconhecemos o milagre de uma arte imóvel, uma arte que surge da paralisação. Quando estás em sossego sinto um coro de ós e ás que te rodeiam,…

Em tudo passou a haver beleza ("Ordesa")

Há dias sonhei que tinha cabelo. Melhor, sonhei que tinha um cabelo como o do George Clooney, assim cheio de "canas", como dizem os espanhóis e nós também devíamos dizer. Ter um cabelo viçoso, a gritar saúde e pejado de canas é o último estágio da sensualidade capilar, e eu sonhei que estava assim, embora o resto se mantivesse no mesmo estado em que está. O deus dos sonhos só permitiu que a minha felicidade temporária se confortasse com o cabelo, ainda que o tenha permitido por largos minutos. Nem sempre me é permitido sonhar adequadamente com coisas boas, coisas que nos aproximam de um estado de felicidade que não é fácil ter na vida fora dos sonhos. 
Os melhores sonhos que tenho costumam envolver motas ou bolos, e quando sonho com motas é sempre uma frustração ao perceber que era só em sonhos que tinha à minha disposição vários veículos de duas rodas para escolher consoante o tempo e o percurso. Geralmente, os sonhos que envolvem motas são longos sonhos, como longa foi a …

Valsa breve

Pouca vida paga o sossego das tuas mãos, os altos e baixos que o roçagar dos teus dedos desenha no meu consolo ou a frágil preocupação das vezes em que não há par, em que eu sou apenas eu e tu és muito mais do que nós. Há um tempo para te ter em abstracto e onde te anuncias numa imagem que imita uma valsa em movimento perpétuo, em passos articulados e breves como breve é o consolo do teu corpo. E tu tentas os movimentos da dança, em meneios distraídos que te escapam aos sentidos mas que persigo com o mesmo olhar que atribuis à descrença em ti. Tens-te em contas de subtrair na medida certa das minhas contas que te somam, mas nada me subtrai de ti, agora que o adiamento é já um passado adiado, consolo apenas das tuas objecções ao que digo e tenho de ti. Tantas vezes, minha querida! 
Quase sempre sou de um tempo em que já não se vive, um tempo que traça em linhas firmes a cópia da tua valsa, ensaiada no sono em que te ocultas e onde tentas a imagem clara do nosso viver, nem sempre com o…

Um dia dos felizes

Sempre que me perguntavam o que gostaria de fazer profissionalmente não sabia que resposta dar. Sabia que só uma actividade relacionada com os livros me deixaria satisfeito, mas jamais consegui nomear essa actividade. Estudei apenas para estar mais perto dos livros, nunca o fiz com a pretensão de colher frutos em termos profissionais e cedo tive a noção - até porque a idade a isso ajudava - que muito pouco poderia esperar de um curso que, supostamente, me ajudaria a interpretar a partir da leitura.

Deu-se a feliz coincidência de ter surgido uma possibilidade de trabalho (ainda que desempregado) em concomitância com os estudos. Trabalhava durante o dia no meio de livros e, à noite, debatia sobre alguns desses mesmos livros, num aconchego inebriante e que só os livros têm a capacidade de assegurar. Esse estado de entropia, se bem que muito me deu, por outro lado sujeitou-me a alguns dos piores períodos pelos quais passei. E se me permitia meditar sobre tudo o que se passava, sobre o em…

Um militar e o "Quijote", ou apenas mais um pretexto para falar sobre o génio cervantino.

Nunca é demais falar de livros, sobretudo numa altura em que se discute a pertinência do ensino da literatura quando se devia discutir, sim, a pertinência da discussão sobre a pertinência do ensino da literatura. Para a maioria da gente inútil que vive dos livros, seja enquanto objecto ou enquanto "portador" de textos - literários, ou não -, a discussão não é sequer complexa, na medida em que o óbvio se antepõe à pertinência da mesma. Para essa gente inútil, na qual, por razões mais do que conhecidas, me incluo, a evidência da importância dos livros - e da literatura, por sinédoque - é, e será, sempre indiscutível. Os argumentos parecem-me esgotadíssimos da parte de quem os defende (aos livros, entenda-se), e por mais que (supostos) novos argumentos sejam lançados à discussão já não há paciência para contra-argumentar.
Do que a gente inútil vive é da conversa em torno do livro. Do que eu vivo, em grande parte, é da possibilidade de estender essa realidade, mesmo que, por ra…

Correcções a azul

Passo estes últimos dias em revisões de um trabalho que me acompanha desde Julho do ano passado e com o qual muito lutei inicialmente, e reparo nas coisas que achava perdidas algures entre correcções sugeridas pelo meu orientador, a quem devo muito mais do que "apenas" orientações. Durante meses olhei para as correcções e/ou sugestões, que se distinguiam do texto por estarem a azul, com uma ansiedade extrema e por vezes com alguma irritação. 
Sobretudo no início, quando recebi a primeira revisão, levei dias a reler aqueles excertos a azul, a tentar convencer-me de que seria capaz de levar tudo até ao fim mas pensando em desistir com muito mais força do que em continuar. Fechava o documento e não o voltava a abrir durante alguns dias, na esperança de que um sopro mágico dele erradicasse qualquer sinal dos excertos a azul. Mas não. Quando concluía que, por mais trabalho extra a que as correcções me obrigassem, talvez devesse tentar, reparava na dificuldade em avançar com o te…

A rapariga do sorriso e a literatura

As pessoas que gostam de livros são aborrecidas. Os homens que gostam de livros, e cuja atenção parece ser despertada apenas por eles, são pessoas alheadas e distraídas do que vai no mundo real e inábeis no que toca a manejar as coisas de que é feito esse mundo real. Eu espero que a minha atenção ainda não esteja neste ponto mas, pelo sim pelo não, falei do Quijote à rapariga do sorriso. Fiz questão de lhe mostrar que a loucura dos livros pode ser perigosa, pode afunilar todas as nossas escolhas e, num caso extremo como o de Alonso Quijano, pode matar-nos de loucura. Só quando cheguei a esta parte é que percebi que talvez este fosse já um sinal do aborrecimento que causa um homem que gosta de livros. Que raio interessa o que aconteceu a Alonso Quijano? Lá pode ser possível que uma pessoa adulta se deixe levar por minudências escritas em papel?! Avisei a rapariga do sorriso que estas perguntas irrompem pelos pensamentos de quem gosta de livros e que quase nunca há uma resposta que desc…

Sem a rapariga e sem o seu sorriso

Quando a rapariga do sorriso não está comigo o mundo agita-se. Não é só o meu mundo, é o mundo no geral. Toda a gente o sente estrebuchar porque todos sabem que uma rapariga como a do sorriso traz-nos a segurança que só um mundo quieto nos pode dar. E as pessoas que me conhecem reparam no meu incómodo, e nem a minha natural sisudez - que a rapariga do sorriso diz ser fruto da minha imaginação - evita que me perguntem, "Está tudo bem?", ou "O que é que se passa contigo?", ou façam afirmações como, "Tu hoje não estás bem". E eu respondo que não, que está tudo bem, que não me abeiro da tristeza por não a ter, mas o meu corpo de homem adulto não é capaz de esconder a criança que responde e as pessoas ficam com a certeza de que não está tudo bem e que se passa alguma coisa comigo, e só não insistem porque eu reforço a minha sisudez e elas recolhem a sua preocupação e sorriem nas minhas costas. Sou a criança que treme sem a segurança de uma mão.
Quando a raparig…

A rapariga do sorriso

Conheci uma rapariga por cujo sorriso luto cada segundo do dia. Na verdade, conheci o sorriso primeiro do que a rapariga, mas talvez ela não se aborreça ou desenvolva um sentimento de ciúme por ele: afinal, é o seu sorriso, e a rapariga já terá percebido que, não sendo tudo, é como uma luz de presença que a torna visível ao caminho. A rapariga não precisa de saber para onde se dirige; já o caminho que percorre reclama conhecer que é aquela a rapariga que o caminha. Quem sabe talvez se apronte e se mostre engalanado para a receber. É preciso cuidado com a rapariga do sorriso porque, sem querer, sujeita-nos a evidenciar o belo unicamente para a agraciar. É assim com o caminho e é assim também comigo. Recordo-me da primeira vez que vi o seu sorriso: não a vemos sorrir, atenção, o sorriso ganhou a sua autonomia e a rapariga permite que assim ocorra. Bem, não foi a primeira vez que a vi, isso eu sei; por motivos que desconheço, nas primeiras vezes vi "apenas" a rapariga, que possi…

Como um livro de "Seda"

O mais próximo que há da experiência de ler Seda (Quetzal, 2016) é a sensação de estarmos no campo, ainda crianças, à noite, numa roda de amigos com um adulto a sussurrar-nos o texto ao ouvido. Um livro que apenas pode ser lido em sussurro e que reitera, capítulo após capítulo, os lugares mágicos da linguagem, os pormenores que ficam depois de filtradas todas as palavras. Como numa lenda, o curto texto - com uma criteriosa escolha dos vocábulos - vai desenrolando-se num contínuo feito de pequenas e breves perfeições, como seda afagando-nos a imaginação. 
Hervé Joncour é um comerciante de seda em meados do séc. XIX, contemporâneo do eminente realismo literário de Flaubert, com a sua Madame Bovary, cuja referência não ocorre de forma gratuita. Perante a necessidade de procurar ovos de bichos-da-seda em perfeitas condições - uma doença na "colheita" anterior havia arruinado um ano de produção - Hervé viaja para o Japão, em busca das mais puras larvas. Viagens que não demoram m…

O não "embalar" de uma biblioteca

Conheci Alberto Manguel no ano de 2006 ou 2007, não consigo precisar, aquando de uma vinda à Biblioteca Pública de Évora para dar uma pequena conferência e participar num grupo de leitura. Até então, nunca ouvira falar dele: sabia que o escritor argentino Borges tinha alguém que lhe lia os livros (devido à cegueira) mas jamais me passaria pela cabeça que um dia iria contactar com esse "alguém". Pois bem, Alberto Manguel é a pessoa que lia para Borges, nessa tarefa que tem muito de humanismo mas tem também um lado perverso: o de nos vermos sujeitos a ler o que o outro nos pede. Claro que podemos sempre evocar a justificação romântica de que estamos a ler para alguém especial, mas a verdade é que se trata, grosso modo, de uma intromissão na vontade do leitor, e essa, senhores, é sagrada. O interesse destas "curiosidades" reside no facto de contactarmos, ainda que em "2ª mão" com o próprio Borges, um dos "imortais" da literatura universal. Manguel…

Autobiografia da memória

Dentro de dez dias farei trinta e nove anos e continuo a ser, curiosamente, o irmão mais novo. Revisito os anos, um a um, mas a memória quebra nos pontos mais frágeis da vida, escolhendo as circunstâncias que não cabem na importância das minhas paixões.
Vivo cada vez mais obcecado com essas oito vidas do desespero, traçando-lhes as rotas apoiado na mesma memória com a qual mal falo: uma relação que imita tantas outras que tive nestes quase trinta e nove anos de vida, infelizmente. Talvez lhe deva maior condescendência, já deveria ter aprendido: afinal, é dela que espero as imagens que me ajudarão a completar cada linha do que foram as oito vidas, mesmo que apenas três linhas sejam necessárias para as ter em palavras.
Guardo-as ao longo do ano, em cadernos coloridos onde pairam pedaços de papéis anotados por alguém que já não eu mas com a minha letra, a par com as coisas do dia-a-dia: a palavra-passe do netbanking; a quinquagésima sétima palavra-passe de acesso ao sistema informático …

Amor combate

- Carrego um filho na barriga, minha mãe. - E quem é o pai? - É só um filho, mãe, nada mais do que um filho. - Mas ele vai precisar de mamar, e terás de aguentar as horas da noite em que ele te mantém acordada, e para isso talvez precises de um bom homem, um homem que te prenda a mão com a força de um pai, filha. Quem é o pai? - Havia dias que o esperava à janela. Olhava o fundo da rua enquanto me distraía com os passos desacertados das gentes do bairro, como um bailado sem guião, carregando sacos cheios de inutilidades no interior, em anúncios de supermercados. Então ele chegava, mãe, no seu passo acertado contrastando no desacerto daquela gente, um passo seguro que definia as linhas da calçada. Nesse momento eu fechava a janela e sentava-me em frente ao televisor, com as mãos cruzadas no regaço, dedos entrelaçados de esperança vã. Ele ajoelhava-se à minha frente, desembrulhava-me as mãos e pedia-me que o seguisse, como a um consolo. - E quem é o pai, filha. Uma criança não carrega …

"A gorda": uma teoria da personagem.

"Hoje lavei com dificuldade os lençóis de sábado à tarde e só porque a mamã exigiu. Sinto-me cansada da labuta doméstica. O pombo da varanda de trás arrulhou a manhã inteira, cortando o meu sono às fatias. Tenho de me habituar a suportar tudo, como suporto o ruído da máquina do elevador, cuja caixa se situa por cima do meu quarto. Tem estado calor e durmo nua sobre os lençóis de algodão branco do meu enxoval, que resolvi começar a usar. A mamã não gosta que durma nua. A mamã diz que uma mulher séria não tem hábitos desta natureza, mas eu sou de uma seriedade que a mamã não concebe." [pp. 64-65]
O excerto acima poderia resumir, em grande parte, a condição de Maria Luísa, a gorda que dá título ao mais recente livro de Isabel Figueiredo. A vida de uma mulher que transporta muito mais do que "apenas" o peso do corpo, peso este de que se vê livre ao submeter-se a uma cirurgia - de que o leitor tem conhecimento logo a abrir o texto - mas que, na verdade, não lhe retira o p…